27 maio 2014

Onde foi que eu errei?

 

  Portanto, meu receio não era apenas de virar minha mãe, eu temia ser mãe. Tinha medo de me tornar aquela âncora segura e estacionaria que fornece plataforma para a decolagem de mais um jovem aventureiro, cujas viagens eu talvez inveje e cujo futuro ainda não tem amarras nem mapas. Tinha medo de virar aquela figura arquetípica na soleira da porta - desmazelada, meio gorda - que acena adeuses e manda beijos enquanto uma mochila é posta no porta-malas; que enxuga os olhos com babado do avental sob a fumaça do cano de escape; que se vira, desolada, passa o trinco na porta e vai lavar os poucos pratos que restaram na pia, sob um silêncio que pesa sobre a cozinha como um teto caído. Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada. Quantas vezes não fiz isso com você, largá-lo com as migalhas da baguete de nosso jantar de despedida e voar para o táxi que me esperava na porta? Não creio que alguma vez eu tenha expressado o meu remorso por submetê-lo a todas aquelas pequenas mortes da deserção em série, ou que tenha elogiado seu comedimento ao limitar a mais que justificável sensação de abandono a um comentário sarcástico ou outro.

   Franklin, eu tinha verdadeiro pavor de ter um filho. antes de engravidar, minha visão do que significa criar uma criança -  ler histórias sobre trens e casinhas com um sorriso no rosto, na hora de dormir, enfiar papinha em bocas escancaradas - parecia ser a de uma outra pessoa. Eu morria de medo de um confronto com o que poderia vir a ser uma natureza fechada, pétrea, de um confronto com meu próprio egoismo e falta de generosidade, com o poder denso e tardio do meu próprio ressentimento. Por mais intrigada que estivesse com o "virar da página", sentia-me mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia. E creio que foi esse terror que talvez tenha me atraído, da mesma forma como um parapeito nos tenta a dar o salto. A intransponibilidade da tarefa, sua falta absoluta de atrativos, foi o que, no fim, me seduziu. (pg. 45)


( Precisamos falar sobre o Kevin - Lionel Shriver)


• • •

  O livro: "Aclamada por público e crítica, a história da mãe que tenta entender os motivos que levaram o filho adolescente a cometer um massacre na escola teve sua adaptação para o cinema (...) estreou na mostra competitiva de Cannes e foi eleito o melhor do Festival de Londres.

O que achei do livro: Décimo sexto livro do ano, com uma leitura interessante. Nele a protagonista Eva (ou E-e-V-A, como seu amado a chamava) manda cartas pro seu querido marido Franklin, com assuntos que envolvem ao mesmo tempo: seu passado, a fatídica "quinta-feira" (onde seu filho de 17 anos liquidou 9 pessoas no ginásio do seu colégio) e a pós tragédia (as repercussões que isso acarretou na sua vida). Um livro um tanto pesado, que te cansa (emociolmente), assim como ocorre com o filme. Onde você se vê querendo ou não ajudando a protagonista a responder "os porquês, a construção de uma meditação sobre a maldade e discute um tabu: "a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influencia e responsabilidade na criação de um pequeno monstro"

Nenhum comentário: