18 março 2017

Precisamos Falar sobre o Kelvin


Livro: Precisamos Falar sobre o Kelvin
Autor: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca
Paginas: 464

Um dos poucos livros que já li e tive um sentimento tão confuso em relação a ele 📖. Ao mesmo tempo que eu ficava tão interessada e envolvida com a leitura - embora soubesse o desfecho por já ter assistido o filme 🎬 -, o meu Eu me sabotava e fazia mil coisas pra que eu fugisse dele. Acredito que essa fuga se deu por eu ter me identificado bastante com a personagem da Eva, mãe de Kelvin; Eva demonstra um misto de frieza com sentimentos confusos relacionados ao seu filho e principalmente ser mãe. Numa passagem ela chega a pensar que deveria ter ido a Paris ao invés de ter tido um filho.
Me pegava querendo muito ler e ao mesmo tempo fugindo da leitura 👀 . Acho que passei um mês pra lê-lo (me agarrava a qualquer leitura passageira e deixava ele de lado). Até bater o pé e dizer: só vou começar a ler outro livro quando terminar esse).
Quando terminei fui invadida por um sentimento estranho de bom livro terminado 😞.

(Abaixo alguns trechos do livro selecionados especialmente para vocês)

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"Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustadas ou laços a serem cortados, quem se preocupa com a opinião dos outros. Você, na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom." (p.171)


"Embora fosse pequeno para sua idade, poucas vezes conheci alguém que ocupasse mais espaço metafísico. Uma seriedade enfezada jamais me deixava esquecer de sua presença; e, se falava pouco, observava um bocado." (p. 186)


"Tudo o que q violência faz é ensinar à criança que a força física é um método aceitável de obter o que se quer." (p. 209)


"No entanto, guardar segredo é uma disciplina. Nunca me considerei boa mentirosa, mas, depois de certa prática, adotei o credo dos safados, segundo o qual mais, que fabricar uma mentira, a grande questão é de casar com ela. Uma mentira bem-sucedida não pode ser trazida ao mundo, e depois, abandonada por um capricho qualquer. Assim como todo relacionamento em que há um compromisso de ambas as partes, a mentira tem de ser mantida, e com muito mais empenho que o dedicado à verdade, que continua sendo uma meta verdade descuidada sem ajuda de ninguém. Já a minha mentira precisava de mim tanto quanto eu precisava dela e, portanto, exigia a constância de um voto matrimonial: até que a morte nos separe." (p. 210)



"Eles estavam decididos a encontrar uma falha mecânica nele, porque máquinas com defeitos podem ser concertadas."  (p.303)



29 setembro 2016

"Fulana agora virou feminista"

Lembro que em 2013 estava conversando com uma amiga e surgiu o nome de outra colega na conversa. A colega em questão não estava no momento, mas essa minha amiga falou:
- Ah, fulana? Fulana agora virou feminista. É uma boa pessoa, mas está chata demais com isso.
Todos que estavam ao meu lado começaram a rir. Dei um sorriso sem graça e me calei. Eu estava começando a ler mais coisas sobre o feminismo - embora sempre lutasse pela causa inconscientemente -, e aquilo me chocou. Tanto por ser uma mulher a falar aquilo, como por pensar que se eu continuasse propagando o feminismo todos iriam me ver como chata também.

Bom, então qual foi a minha surpresa quando aquela amiga minha, que sempre falou mal do feminismo, ter virado do dia pra noite uma feminista radical? Onde tudo era machismo, até mesmo as mais simples das declarações amorosas?
Descobri que ela havia sofrido abuso psicológico e agressão. E junto com a tristeza por isso ter acontecido com ela, com a raiva daquele que cometeu tal ato, veio também a tristeza por ela ter mudado de atitude da pior maneira possível.

Eu fico triste quando vejo mulheres que só dão valor ao feminismo quando sofrem na pele uma agressão, ou qualquer outro tipo de machismo. Fico triste e com raiva por coisas desse tipo ainda acontecerem com nossas mulheres. Fico triste por ver uma mulher lutando por uma causa depois que sofreu muito por um homem. Fico triste, porque fico pensando que poderia ter feito algo, ter aberto os olhos dela pro machismo que estava na sua frente e que só traria consequências desse tipo. Mas, toda vez que abria a boca pra falar do feminismo, ela criticava e até zombava da causa. 

Uma pena porque seria bem melhor criar empatia pela outra, lutar pela história triste da outra, entender o que a outra passa do que simplesmente só olhar pra causa quando isso, infelizmente, aconteceu com você.
Existe uma linha tênue entre feminismo e feminismo radical. Infelizmente essa linha é ultrapassada facilmente por aquelas que foram levadas até o seu limite. E quem vai culpa-las depois de tudo que sofreram?
Nenhuma mulher tem culpa. Nem eu que nunca sofri algo do tipo, nem aquela que já sofreu, nem o feminismo. A culpa está no patriarcado, nessa sociedade que culpa a vitima, nessa cultura que coloca o homem a cima das mulheres, mulheres contra mulheres e que taxa toda mulher que pensa diferente de nos como "loucas, chatas e mal comidas", e que por isso temos que correr pro feminismo. Por termos que lutar por igualdade quando na verdade isso deveria ser algo natural.

Empatia. Mulheres, nos precisamos ter empatia.

                                        

01 março 2016

Você diz que eu sou subversiva.



Ontem estava deitada na minha cama com um ócio maior do mundo. Muito ressacada para fazer minha monografia e qualquer outra coisa que exigisse um pouco mais de comprometimento.
Comecei a lembrar de coisas, momentos, historias.
Você diz que eu penso muito, que eu lembro de tudo, até mesmo do que eu não vivi.
Será isso possível (ponto de interrogação)
Como eu posso lembrar de tudo se eu esqueço até mesmo onde fica o botão de interrogação?
Fiquei preocupada com isso. Lembrar de historias - historias, não nomes - que aconteceram comigo aos 2-4 anos de idade e não lembrar onde fica o maldito botão de interrogação. Tive que forçar meus dedos a irem no automático até lembrar onde ele fica no teclado.
E isso não se resume apenas ao teclado. Numa conversa normal eu começo a esquecer as palavras. E isso é a coisa mais estranha que pode acontecer.
Como alguém esquece o que falar?
Você diz que eu armazeno muitas informações na cabeça, penso demais. Acabo perdendo as pequenas coisas.
E por que mesmo que somos obrigados a lembrar das coisas insignificantes?
Você diz que eu sou subversiva.


Eu conheço essa palavra, mas no momento seu significado me escapa da memoria.
Você diz que é aquela pessoa que gosta de quebrar as regras.
Na sua boca aquilo soa tão grosseiro, tão do mal. Como se realmente fosse algo tão ruim quebrar as regras. Mas, isso não é verdade. Eu não quebro as regras,só não gosto de algumas delas.
 Não gosto da regra de ter que gastar rios de dinheiro em uma festa de casamento e só conseguir realmente aproveita-la quando você enche a cara e passa vergonha de tão bêbada que você vai estar.Pra mim, eu, você, uma praia, um por-do-sol, um pedido de casamento e o céu como testemunha já são o suficiente.
Não gosto da regra de ter que fazer uma grande festa de formatura, com aquelas besteirols toda de valsa, dancinha pagadora de mico e aquela alegria contagiante de quem saiu de universitário para desempregado (parto do mesmo principio do casamento). Para mim, a colação de grau, meu diploma e meu anel são mais que suficientes.
Não gosto da regra de ter que mobiliar todo um apartamento para morarmos juntos. Por que tu não pega seus trapinhos, eu pego os meus, a gente se junta e passa os dias dormindo em um colchão inflável, um frigobar e um retroprojetor servindo como televisão. Nos dois, pelados, bebendo vinho em taças bonitas enquanto você prepara um macarrão. Eu e você dançando pela sala  (que alias, iria ser a unica parte do apê mobiliado).

mas, você diz que eu sou subversiva, que não sigo regras.

você diz também que eu penso rápido demais, e que não concluo meus pensamentos.
Que de desmemoriada eu pulo pra casamento.
Cadê a porra da organizadora de pensamentos? Minha cabeça ta lotada.